terça-feira, 14 de julho de 2015

"OS FILHOS DE ABRIGOS” À ESPERA DE UM LAR


05-07-2015
Cynthia Costa
Cidades
Atualmente, existem 135 crianças e outras 11 portadoras de necessidades especiais à espera de adoção em Goiás. Juiz explica que falta de pessoal é entrave para atendimento à área.
Uma pesquisa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) revela que a burocracia ainda é a principal dificuldade no processo de adoção no Brasil. Além disso, o estudo esclarece que há pouco mais de 33.400 pretendentes a adoção no Cadastro Nacional, enquanto o número de crianças abrigadas está em torno de 5.500. Uma quantidade elevada, levando-se em consideração que mais de 4.300 delas tenham acima de dez anos.
A pesquisa do CNJ teve como principal objetivo identificar o tempo médio total e por fases dos processos de guarda, desconstituição do poder familiar, medidas protetivas de acolhimento e adoção. Os resultados levam em conta a peculiaridade de cada estado. Essa demora, muitas vezes, acaba fazendo com as que crianças passem toda sua infância no abrigo até os 18 anos, são os chamados “filhos de abrigo”. A investigação mostra ainda que as regiões Centro-Oeste e Sul apresentam maior demora nos processos de adoção, em média mais de dois anos, enquanto que no Nordeste e Sudeste esse tempo é menor.
GOIÁS
Para entender o porquê dessa demora em Goiás, a reportagem de O HOJE conversou com o juiz auxiliar da Corregedoria de Justiça do Estado de Goiás, Ronnie Paes Sandre. Segundo ele, uma das explicações para a fila da adoção não andar é o fato de o juizado ter carência de pessoal para a área. Recentemente, de acordo com o juiz, foram empossados psicólogos, pedagogos e assistentes sociais para integrar a equipe que trabalha com adoção. “E, mesmo assim, ainda falta pessoal administrativo para atuar nessa área”.
O juiz afirma que, atualmente, existem 135 crianças disponíveis para adoção em Goiás, inscritas no Cadastro Nacional de Adoção (CNA). Além dessas, segundo Sandre, há outras 11 portadoras de necessidades especiais à espera de uma família. “O Juizado lançou, há pouco tempo, um projeto de adoção especial para beneficiar essas crianças”, conta.
O magistrado explica que muitos casais têm preferência por crianças recém-nascidas para poder começar uma história do zero com elas. “Eles querem experimentar todas as fases de crescimento do filho, por isso nutrem esse sentimento”. Ele esclarece que, por esse motivo, nem sempre os casais adotam crianças mais velhas.
Sandre relata que é frequente, em Goiás, a situação de menores que não são adotados e vão ficando mais velhos que acabam cuidando de outros a espera de um lar. “Aqui, os adolescentes acabam permanecendo no próprio abrigo, onde se tornam voluntários a fim de ajudar a cuidar das outras crianças que lá estão”, finaliza.
MEDIDAS
Os pesquisadores sugerem uma série de medidas para melhorar o sistema de adoção como, por exemplo, agilização da guarda da criança e cumprimento de prazos; evolução do diálogo entre juízes, setor técnico e promotoria; aprimoramento dos cursos com adotantes; redução da insistência em manter as famílias biológicas, permitindo assim a destituição para que se possa fazer a adoção e criação de uma vara especializada somente em adoção e destituição.
Levando ainda em consideração a realidade das crianças abrigadas com mais de dez anos, a pesquisa também apresenta propostas para o aprimoramento dos abrigos, como investimento na formação do adolescente, maior ocupação e atividades dos abrigados fora do turno escolar, separação das crianças por idade, preparo psicológico de adolescentes próximos dos 18 anos e investimento para que as equipes dos abrigos sejam mais fixas, porque a alta rotatividade causa prejuízo para as crianças e adolescentes que acabam não criando vínculos duradouros.
NUNCA É TARDE PARA SE FORMAR UMA FAMÍLIA
A auxiliar administrativa Elita Paula Almeida Soares, 29 anos, e o marido, o tecnico em informático Daniel Gil Soares, 39, residentes no Jardim Dom Bosco, adotaram três meninos. Uma adoção tardia, já que os irmãos possuíam 8, 10 e 12 anos. Apesar de ter se casado muito jovem, só há pouco tempo ela e o marido resolveram aumentar a família. Foi quando descobriram que ele tinha um problema e, de acordo com Elita, mesmo fazendo tratamento a gestação não aconteceu.
Elita revela que, ao mesmo tempo, eles tinham feito um cadastro para adoção no CNA em que o primeiro perfil pedia uma criança de zero a três anos. Segundo ela, após a notícia da impossibilidade de gerar os próprios filhos, ela e o marido buscaram apoio no Grupo de Estudo e Apoio à Adoção de Goiânia (Geaago). “A partir daí, mudamos o perfil para duas crianças de três a dez anos”. Foi quando soube da história dos três irmãos que estavam à espera de um lar.
Ao conhecer as crianças, Elita afirma que se surpreendeu com a educação e o amor que eles demonstravam possuir. “Começamos a aproximação, por meio de passeios e visitas para dormir em minha casa. Então, nas férias, eles vieram ficar comigo e não consegui devolvê-los mais para o abrigo”. Ela esclarece que já tem um na que os meninos estão sob sua guarda e, agora está sendo finalizado o processo para a guarda definitiva.


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